Surfando ondas mais altas: conheça os mistérios do Tow-in e os projetos de Alemão de Maresias


Imagem: Arquivo Pessoal

Se você conhece a história do surf no Brasil, com certeza já ouviu falar em Edílson Assunção, mais conhecido por Alemão de Maresias. O apelido não é por acaso. Sua paixão pelo surf começou na década de 80, quando ainda era um garoto de 11 anos e pegou uma onda pela primeira vez. Foi amor à primeira vista. A partir desse momento, o  alemãozinho passava o máximo de tempo que conseguia na Praia de Maresias, se empenhando em buscar cada vez mais conhecimento e se dedicar ao surf. Desde o começo, se identificou com o mar storm, ficando fascinado quando via o mar de ressaca. Em Guaecá, Maresias e São Sebastião, começou a entender a importância da conexão com o mar. O fascínio pelas ondas maiores surgiu assim, sem pretensões. Hoje, ele é um gigante do esporte.

E foi em ondas gigantes que Alemão consagrou seu sucesso. Praticante da modalidade tow-in, hoje em dia ele realiza o trabalho mais importante na categoria: o reboque e resgate de atletas, em ondas que podem passar de 20 metros. Entre suas parcerias, estão nomes de peso, como Maya Gabeira, Carlos Burle, Pedro Calado, Lucas Chianca e Rodrigo Koxa.

Quer saber mais? Confira aqui todas as dicas do Alemão para a prática correta e segura do Tow-in:

Afinal, o que é a modalidade tow-in?

É a prática do surf em ondas gigantes. Com a evolução do esporte e a busca de ondas maiores em lugares inóspitos, se introduziu a ferramenta do jet-ski, da moto aquática e do helicóptero para auxiliar os atletas a chegarem nessas ondas. No início, eram botes de borracha, depois entrou o jet-ski, uma ferramenta que funcionou muito bem, evoluiu muito e ajudou na performance dos surfistas. O equipamento é usado para resgate, quando o surfista não finaliza a onda, ou apoio, levando o atleta até ela.

Qual a diferença entre surfar ondas "normais" e gigantes?

A principal diferença está nos equipamentos, cada onda exige um tipo de material adequado ao seu tamanho e peso. O verdadeiro surfista tem que estar habituado e preparado para surfar nas mais variadas condições, seja em ondas normais, grandes ou gigantes. É preciso ter preparo físico e psicológico.


Imagem: Arquivo Pessoal

Quais as dicas para quem quer começar a pegar ondas grandes?

Antes de começar, buscar conhecer pessoas que praticam ou já praticaram, para aprender melhor como funciona. Se você realmente quiser fazer tow-in, é preciso fazer um treinamento de apneia, para testar o condicionamento físico, e aí sim fazer uma sessão de tow-in com segurança. É importante também treinar muita remada nos mais variados equipamentos, como canoa havaiana, SUP e prancha, para preparar os braços e poder remar nas ondas grandes. É um esporte muito bacana, que oferece muita adrenalina e emoção.

Tow-in pelos dois lados: como é a sensação de surfar uma onda gigante e como é a sensação rebocar um atleta até ela?

A sensação de cada um é singular. Como surfista, independente de quem te coloque na onda, se conseguir entrar em uma onda de 10 metros, 15 metros, 20 metros, na velocidade de 60km/h, 80km/h, a sensação é indescritível. Você sente a prancha fora de controle, vindo quicando na onda. Quando é uma onda muito gigante, você vê a massa de água e não sabe em que ponta da onda você está, tem que ir se posicionando, fazendo a leitura da onda, tudo isso é uma adrenalina incrível, desde o momento em que o cara começa a te direcionar pra onda até o momento em que você solta a corda e se lança na montanha d'água. É surreal, é fora do comum, é uma adrenalina muito grande, é pura adrenalina!

Na questão da pilotagem é mais ou menos parecido. Se o cara surfa bem, a probabilidade dele pilotar bem vai ser muito maior, porque ele tem uma leitura de onda diferente, isso favorece muito quem pilota. Como piloto, você tem uma dose extra de adrenalina, porque você precisa posicionar o atleta na onda numa condição boa para que ele conclua, mas, caso ele não consiga, você tem a segunda responsabilidade que é o resgate em uma situação crítica. Então acho que a pilotagem tem duas vezes mais adrenalina do que você surfar a onda por si só.


Imagem: Arquivo Pessoal

Como é a praia ideal para praticar tow-in?

Uma praia com poucas pessoas, onde você não ofereça risco a ninguém. Essa modalidade foi feita para ser praticada longe da praia, longe das pessoas, para surfar o mais tranquilo possível.

Uma praia que praticantes de tow-in precisam conhecer:

Nazaré (Portugal) e Ilha de Páscoa (Chile).

No Brasil, existem praias indicadas para a modalidade?

Sim, muitas, como Maresias (SC), Laje de Jaguaruna (SC), Barra da Tijuca (RJ)...

O tow-in é um tanto controverso. Há quem reclame do barulho e poluição causado pelos jet-skis ou helicópteros, o que você acha disso?

Dependendo da distância em que o atleta estiver praticando, realmente é muito incômodo. Você, como piloto, tem que respeitar as regras básicas da navegação próxima às pessoas. Evitar é sempre melhor, o ideal é praticar longe para não perturbar e não ser perturbado.


Imagem: Arquivo Pessoal

Quais são os seus projetos atuais e futuros com o surf?

Atualmente sigo dando coach para alguns alunos de tow-in, me dedicando no surf na remada, ao SUP e canoa hawaiana, com complementos e treino. Sigo focado em uma viagem pra ASU, na Indonésia, um lugar afastado onde vou dar coach para alguns amigos e alunos. No futuro, o foco é para Nazaré em 2018. E uma surpresa, uma novidade, que vocês vão saber logo mais. A ideia é seguir nessa temporada em busca de ondas grandes e perfeitas, além de criar alguns eventos que são projetos paralelos.

Demais, não é? Mas a gente deixou um presentinho pro final. A paixão e respeito que Alemão dedica ao mar são tão visíveis e contagiantes que separamos um trechinho da nossa conversa pra você. Leia o relato e sinta a energia transmitida neste recado:

“O surf ainda é muito novo no Brasil, muito jovem, as pessoas não entendem a verdadeira essência do surf e o significado dele… É por isso que hoje eu me dedico a buscar outras modalidades, para me conectar mais com o mar e ajudar a aprimorar meu surf naquilo que eu quero, que é surfar ondas grandes, que é pilotar em ondas grandes, que é estar remando de canoa havaiana em longas travessias e assim por diante. Sempre estar com saúde, passar um bom exemplo pros meus filhos, pra minha família, pros meus amigos, e assim por diante. Acho que o surf é isso, você se conectar com o mar, se conectar com a natureza, não importa como. O que importa é estar de coração e de alma. União e força sempre, com amor e gratidão!”


Imagem: Anselmo Venansi